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Twitter: maturidade, casório com a TV e declínio aos oito

twitterSe o Twitter fosse uma pessoa, seria a ovelha desgarrada. O filho jovem promissor que mostrou ter potencial na adolescência, mas que quando atingiu a maioridade resolveu largar tudo, virar hippie ou seguir algum outro movimento não muito definido. É como na vida real: há quem se atraia pela ovelha desgarrada. Há quem simplesmente se sinta indiferente a ela. No meu caso, fico em cima do muro. Eu a observo assim, de longe, com alguma admiração, mas também um pouco de estranheza.

Oito anos do Twitter. O que mudou?

Em 21 de março de 2014, o Twitter completou oito anos de existência. Na ocasião, divulgou a ferramenta #FirstTweet, através da qual era possível consultar a primeira mensagem tuitada do seu perfil (o que nos garantiu a lembrança de algumas postagens que hoje seriam inusitadas). Mas, mais interessante do que isso: já em abril, a rede social divulgou alguns dados dos seus usuários brasileiros (leia mais aqui). ALGUNS DADOS, sim, porque a conclusão mais consistente a que eu cheguei a respeito dos acessos ao Twitter no Brasil é a de que não se dá para chegar a conclusões consistentes sobre o assunto. O Twitter não divulga dados com relação ao número de usuários no Brasil. O perfil apresentado do brasileiro que acessa a rede é todo montado em cima de percentuais e, sem números absolutos, é difícil aplicá-los a um plano de marketing, por exemplo. São dados relevantes para o estudo comportamental do tuiteiro, mas ao meu ver são insuficientes para uma investida corporativa. Mesmo os dados oferecidos pelos institutos de pesquisa são confusos. A eMarketer, por exemplo, realizou uma pesquisia em dezembro de 2013 que apontou o Twitter como a sétima rede social mais acessada no Brasil, atrás de redes como Badoo, Google+ e – pasmem – o Orkut. Nesta mesma pesquisa, o LinkedIn encontra-se em 10º lugar, atrás do Bate-papo UOL. Tudo muito diferente do que outras pesquisas já divulgaram.

Em todo caso, foquemos no perfil comportamental do tuiteiro brasileiro. Algumas informações que foram oficialmente anunciadas:

  • 214 milhões de usuários ativos no mundo (o Brasil está entre os cinco principais em inscritos);
  • 80% dos acessos se dão por plataformas mobile;
  • 97% dos usuários do Twitter assistem TV todos os dias. 50% deles usam o celular enquanto assistem;
  • Grandes eventos (como carnaval, Copa do Mundo festividades de fim de ano) geram os maiores picos de tráfego no Twitter do Brasil, bem como os programas de maior audiência na televisão, como final do campeonato brasileiro, episódios de reality shows e término de novelas (veja mais aqui).

Quem se depara com estes dados, ou mesmo quem acompanha o posicionamento que a rede tem apresentado perante a mídia e em eventos corporativos já sacou que o Twitter tem tentado ganhar relevância comercial ligando-se o meio com a maior fatia publicitária do mercado: a televisão. E o faz não só com êxito, mas também com mérito: o Twitter de fato é a mídia social que se demonstra mais “amigável” à TV, sendo palco fácil do buzz imediato que a televisão gera, enquanto mídias como o Facebook, neste contexto, acabam assumindo um papel de plataforma para a discussão “pós-acontecimento”. É aquela coisa: “a coisa aconteceu, quem tinha que tuitar já tuitou, eu já me informei a respeito e agora vou postar minha opinião no Facebook”.

Pode ser uma estratégia bem sucedida do Twitter. A TV, como eu disse, reina no mercado publicitário brasileiro e continuará reinando por muitos anos, isso é sabido. Apresentar-se como a ferramenta oficial de segunda tela é uma maneira de atrair uma pequena parcela dos investimentos direcionados à televisão (e uma pequena parcela dos investimentos voltados à televisão para uma rede social que emprega 40 pessoas nos seus dois escritórios em SP e no RJ ainda é bastante dinheiro). Mas, de uma ferramenta inovadora, que levantou a bandeira da internet como fonte de pautas quentes para a televisão e outras mídias, o Twitter tem se tornado quase um gadget da nova televisão. “Quase” não, ele JÁ se tornou um gadget da nova televisão, na Índia. Ao menos, é o que ele parece ao se defender tanto como a mídia mais próxima da TV.

Eu atribuo essa guinada que o Twitter deu no seu papel perante o mercado digital brasileiro à expansão do Facebook. Eu e muitas outras pessoas. Mas não é assim que pensa um Jack Dorsey, um dos fundadores da rede, que esteve no Brasil em abril do ano passado:

Não temos medo do crescimento do Facebook. (…)Ele é ótimo para manter contato com os amigos, mas é totalmente diferente no Twitter. Abro meu perfil no microblog pela manhã para saber o que está acontecendo ao meu redor.

Faz sentido. Não acho que ele deva se assustar hoje (o que tinha para temer, temeu no passado. Hoje, imagino que já tenham assumido uma posição secundária e lutam por ela). Contudo, pouco após completar 8 anos, o Twitter lança no mercado um novo layout de profile page:

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Ora! Isso não é uma página do Facebook?

Entre cada bebida que o Twitter dá nas fontes da TV e do Facebook, acredito que estejam tentando reafirmar sua matriz de mídia imediatista, de meio de comunicação em tempo real eficiente. Entretanto, a imagem que eu tenho daquilo que se tornaram é confusa. Ser, ao mesmo tempo, um palco de debates sobre o conteúdo da televisão e um canal de informações consistentes e de qualidade em tempo real me parece difícil. Mas aparentemente é o papel que o Twitter tenta assumir aos 8 anos de idade, já passado de sua maturidade, tentando se resguardar do declínio.

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP