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Transdisciplinaridade: que tal voltar para a faculdade?

Nos últimos anos, você ouviu falar cada vez mais na postura multimídia e multidisciplinar que o profissional de comunicação passou a ter que adotar. Saber criar, escrever, planejar, vender, entender, ouvir, interpretar, transmitir, fotografar, filmar, tratar… saber. Se por um lado ninguém exige do publicitário o domínio em todas essas tarefas, por outro, paira aquela consciência imposta de que, no mínimo, é bom ter uma noção de tudo.

Vale voltar para a faculdade?

De certa forma, isso procede. É parte da nossa função saber lidar com os mais diversos perfis psicológicos, hábitos de consumo, tendências tecnológicas e leituras analíticas. E é bem certo também que poucas são as universidades que oferecem formação que prepare um profissional para isso tudo – se é que alguma delas oferece. Por muitos anos, os publicitários tiveram que aprender na marra. Lançados ao mercado de trabalho, o profissional formado descobre que os ensinos de pesquisa e estatística foram insuficientes para tornar a leitura de um simples relatório mais fácil do que ler texto em braile. Que a influência de fatores como o perfil do produto, o gosto do cliente e a verba disponível iriam impactar na sua liberdade criativa de uma forma mais devastadora do que ele previa. Que ele teria que ler muito mais sobre psicologia, sociologia, arte e matemática do que ele imaginava em tempos de estudante.

Mas o tempo de aprendizado na marra está escasso e a realidade inevitável das agências passou a ser a dos perfis multidisciplinares. Entraram no jogo gestores de projetos formados em administração, profissionais de mídia formados em psicologia, gerentes de pesquisa formados em análise de sistemas, dentre outros. Isso sem contar na presença massiva de jornalistas nas agências de publicidade. Em matéria publicada hoje no Meio & Mensagem, Miles Young, CEO da rede Ogilvy, ressalta:

Antes, a palavra agência significava que éramos agentes dos veículos. Agora, as agências adotarão um ponto de vista diferente sobre a comunicação e serão como os publishers. As agências vão operar de forma parecida à de uma redação e os publicitários começarão a atuar como editores. A estrutura de um veículo de comunicação gira ao redor da generalidade de conteúdo e na escolha mais adequada. No final das contas, as agências vão editar conteúdos e entregá-los.

Ora. Se o foco hoje está no conteúdo, não há surpresa nesta afirmação. O que pode sim perturbar alguns profissionais é que poucos são os aptos a assumir essa postura multidisciplinar – daí a presença de tantos formados em outras áreas atuando nas agências.

O que nos leva à pergunta de um milhão de dólares: você já pensou em fazer uma segunda faculdade?

Há cinco dias, a Exame publicou uma “lista de termos em inglês que estão na moda“. Dentre os listados, está a palavra transdisciplinarity. O texto afirma que o conceito não é novo, mas que tem sido muito citado como uma forma de vencer os desafios e que parte da ideia de que uma única disciplina, ou uma única área de conhecimento não é mais suficiente para resolver determinados problemas. E veja bem, não estamos falando de ter múltiplas formações ou de dominar informação de diferentes áreas, mas sim de uma abordagem organizada para a solução dos problemas mais complexos e adjacentes a diversas áreas do conhecimento que está acima das disciplinas em si. A grosso modo (e trazendo para o nosso universo), é como se antes de questionar “que tipo de campanha posso criar na tentativa de solucionar o problema do meu cliente” você se perguntasse coisas como “campanhas publicitárias são a solução para este problema?”, “este problema de fato é real?” ou “será que há solução para este problema?”. E passasse a aplicar este tipo de raciocínio a todo tipo de questionamento na rotina – do mais cabeludo até a fonte que você pretende aplicar no seu layout. Os hábitos de consumo do ser humano são complexos demais para serem compreendidos sob um único ponto de vista.

Então, sim, é importante que você passe a transitar por outras áreas do conhecimento além da publicidade. Sem necessariamente uma segunda formação como sugeri no texto, claro. Mas com experiências práticas ou acadêmicas suficientes para a compreensão de que se espera mais de um publicitário hoje em dia do que conhecer processos como o criativo ou os de negociação de mídia. É preciso saber interpretar, analisar, construir conceitos, criar conteúdos, relacionar-se e aplicar tudo isso à velha rotina de agência que conhecemos. Se não nós, outros virão e certamente serão capazes de fazê-lo.

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP