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publicitario dj

Todo publicitário é DJ

Não, não estou falando do estilo hipster-hiper-moderno-pseudo-cosmopolita que as duas espécimes costumam apresentar. Nem da jornada de trabalho madrugadas a dentro, quando agências estão bem mais cheias do que muita balada. Muito menos dos imponentes fones de ouvido e MacBooks, entre outros apetrechos, que ambos portam no trabalho. Não.

 

O lampejo me ocorreu durante uma festa de fim de ano da agência em que trabalhava. Lá pelas tantas, o presidente da firma – que, por acaso, também discoteca – veio decidido na minha direção. Até aquele momento, eu tinha absoluta certeza de que ele não fazia a mínima ideia de quem eu era. Mas o fato é que ele parou bem diante de mim e indagou:

— Você é o DJ?

Sim. Ele realmente não tinha noção alguma de quem eu era. E, etilicamente emocionado, me confundiu com o disc jockey do evento.

Nesse momento, a velha mania de transformar respostas diretas em um compilado de divagações quase me fez responder que sim. Que o publicitário está para a comunicação assim como o DJ para a música. Que a essência do trabalho de ambos é a mesma, frutos da cultura de massa. E que eu, como publicitário, de certa forma também me enquadrava.

— Somos todos bricoleurs, poderia eu sentenciar, lembrando as aulas de João Carrascoza na universidade.

Afinal, o que chamamos de “criação” na publicidade, nada mais é do que colagens de mensagens sobre bases prontas. Somos adequadores de linguagem, articuladores de conteúdos diversos. Uma obra de arte, a situação econômica, uma descoberta científica ou aquela velha piada. Tudo é matéria-prima. Em outras palavras, criar é fazer remix. Só que os objetivos vão além de simplesmente fazer o target mexer o esqueleto numa pista de dança.

Se eu tivesse chegado até esse ponto, não custaria nada dar mais um passinho e lembrá-lo que, em ambos os ofícios, você é tão bom quanto seu repertório. Não se trata simplesmente de chegar e fazer. O sucesso está em misturar esses samples culturais, editando e mixando conteúdos já existentes de uma forma inédita.

Ou poderia ir ainda mais longe e falaria que a mesma modernidade que nos criou continua nos recriando constantemente através da evolução tecnológica. Sempre simplificando o trabalho e, com isso, facilitando os resultados.

— Como a gente se diferencia, então?, ele me perguntaria.

É aí que eu apresentaria a teoria da “contradição tecnológica”: quanto maiores as possibilidades, mais fácil se chegar a um efeito, menor o empenho e a consequente qualidade.

Cada vez mais o estilo se sobrepõe à criatividade. E a tecnologia, à técnica.

Hoje, qualquer um é DJ, qualquer um é publicitário.

É! Talvez ele tomasse isso como uma ofensa.

Mas na hora H, levando em consideração o teor alcoólico do meu interlocutor, a hora avançada e o meu cansaço, simplesmente me resignei e respondi que eu não era o profissional em questão, virei-me e fui embora antes que ele começasse sua performance nos toca-discos.

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