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Sobre_lacos_head

Sobre laços

Existem momentos na vida de um homem em que não há para onde correr.

No meu caso, isso acontece de tempos em tempos, quando me vejo em frente a uma loja para comprar um presente. Uma ironia e tanto para quem vive do consumo alheio.

Adio a tarefa o quanto posso. Já aconteceu, por exemplo, de eu estar dentro da loja, com presente pensado e dar meia volta para retornar no dia seguinte – e repetir o feito mais uma vez.

Deve haver alguma fobia desse tipo catalogada. Você já viu uma lista dessas? É de dar medo. Cada nome pavoroso. Lá você descobre que existe até fobia de mulher bonita, chama-se “caligenefobia”. Pesquisa depois.

Se bem que um fóbico deve sentir a mesma angústia ao comprar um carro e uma caixa de lápis. O que não é o meu caso. Mas, antes que você me acuse de muquirana, sovina, mão de vaca e afins, permita-me explicar que minha aflição é especificamente com presentes. E não é qualquer presente, não. Nada se compara ao peso de planejar presentes para minha esposa.

Imagino que seja compreensível a responsabilidade de acertar depois de quase uma década com índice de aproveitamento lamentável.

Esses dias, fui lá eu me superar outra vez. Depois do feito heroico de escolher algo significativo o suficiente para a ocasião, informei que se tratava de um presente. A vendedora, então, foi a um canto da loja onde as compras daqueles que quisessem eram adequadamente embaladas.

Um rapaz pegou a caixinha e passou uma fita por seus quatro lados atando as pontas com a destreza de um mágico. Em alguns segundos, um produto, até então igualzinho a todos os outros milhares que passaram pela mesma esteira na linha de montagem, se transformou em meu presente de aniversário de casamento.

Sem caixa ou embrulho com papel especial. Apenas um laço. Simples e verdadeiro.

Essa é uma firula que, a bem da verdade, em si não tem valor algum. Se, por acaso, os gregos tivessem resolvido colocar um laço na crina do cavalo dado aos troianos, o final da história não mudaria. Laço bom não salva presente ruim. Mas que ele tem o poder de desarmar e levar de volta à infância por alguns instantes, ah, isso ele tem.

Após pagar, fiquei ainda alguns minutos ali observando a mágica acontecer sobre o balcão. Produtos serializados (bum!) transformados em presentes. E bastava só um laço. Nunca havia reparado como a arte de atar duas pontas podia ser tão significativa e diversa: laços simples, laços elaborados, laços duplos, laços triplos, lacinhos, lações… Assim como aqueles que nos ligam.

Quando crescer, quero ser laceiro.

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