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A responsabilidade social da publicidade

somostodosmacacosVamos imaginar a seguinte situação: eu sou uma personalidade. Todo mundo me conhece e tenho certa influência. Faço anúncios de muitas marcas e sou considerado um bom investimento. Um dia me envolvo em um acidente de carro. Não tenho culpa, um motorista embriagado cruzou o sinal vermelho e bateu no meu carro. Por sorte nada mais grave aconteceu e saí apenas com ferimentos leves. No passado perdi algum amigo num acidente de trânsito por causa de um motorista embriagado que resolveu dirigir e minha agência de publicidade diz: precisamos criar uma campanha contra bebida e direção.

Eu concordo e criamos todo o conceito da campanha e uma “hashtag” para ser utilizada e tornar viral minha campanha. Tudo pronto e preparado mas eu não lanço! A estratégia é esperar que um acidente ocorra e eu de maneira “espontânea” divulgue nas minhas redes sociais e se torne viral! Eu quero buzz! Eu quero oportunidade de ser falado e compartilhado! Tudo isso as custas de uma nova tragédia.

Será que isso seria bom pra conscientização das pessoas? E se for, será que estaria tendo uma responsabilidade social de promover a conscientização esperando a oportunidade que é um outro acidente? Na minha opinião… não. E isso vale para o recente caso que envolve um ato lamentável contra o Daniel Alves, o Neymar, a agência do Neymar e o Luciano Huck. A campanha #somostodosmacacos banaliza o racismo, não cumpre com uma função social e se aproveita de um ato lamentável chamando-o de oportunidade.

A explicação de como foi criada a ideia saiu na Meio & Mensagem dia 28 de abril e mostra que tudo foi criado após os xingamentos racistas que Neymar e Daniel Alves sofreram por torcedores do Barcelona após uma derrota da equipe. Todo conceito estava na manga. Tudo estava pronto. Só esperando a oportunidade para aparecer… a oportunidade era um outro ato de racismo. Quem é que espera um ato lamentável para começar uma campanha de conscientização? Campanhas com esse viés ocorrem para que NÃO ACONTEÇAM MAIS O QUE SE QUER ACABAR! Campanha contra bebida e direção não começam após um acidente que chame a atenção. Elas começam para que não ocorram mais acidentes! Campanhas contra violência doméstica não devem começar quando alguém conhecido sofre para gerar buzz. Começam para que não ocorram mais violências domésticas!

Um ato que era pra ser espontâneo e muito importante se torna apenas uma jogada de marketing. Pensando em buzz, em compartilhamento, em likes. Caso não tivesse esse foco, seria lançado logo após que Neymar e Daniel Alves sofreram os ataques, não seria necessário esperar outro ato de racismo. Caso não tivesse esse foco, não precisaria ter holofotes sobre os publicitários da agência que dão entrevista e falam com orgulho de sua campanha. Eles querem aparecer ou querem que a população se conscientize?

Não bastava toda a premeditação (que já está pondo em cheque até a participação do Daniel Alves), o apresentador Luciano Huck comercializa uma camiseta com a hashtag da campanha! Ora, se o conceito foi criado por uma agência para o Neymar é de se imaginar que Luciano Huck pediu permissão para utilizar a expressão criada e faturar em cima disso. Tudo está se tornando um grande teatro. Mas isso tudo, não chega nem aos pés da ideia de tudo que é se apropriar do termo racista para desarmar o racista. Não estamos falando de apelido de colégio. Chamar um negro de macaco não é apelido, é crime.

O preconceito no futebol é muito grave para ser banalizado. Eu dizer que sou macaco para que o racista não me atingir me chamando de macaco não coloca as coisas em igualdade, simplesmente diz: ok, você venceu. Agora eu me chamo de macaco para você não me atingir. Isso está errado e fico preocupado que um atleta influente e personalidade perpetuem isso. Não somos macacos. Somos humanos. Pessoas com direitos e que deveriam ter o mesmo tratamento. O racista é um criminoso. Eu me apropriar do racismo não tira o poder de quem o perpetua e sim passa a mensagem de “você venceu”.

O Daniel Alves dizer que não quer ser vítima e diminuir o que aconteceu, é um direito dele. Não cabe a nós julgarmos se isso é certo ou errado. Agora, outras pessoas se aproveitarem disso para se promover é preocupante. Quando uma agência vai fazer uma campanha com o lado social, não deve esperar oportunidades para aparecer. Não deve querer que isso tragar luz para sua empresa ou para seu cliente. Ela deve fazer isso legitimamente para mudar alguma coisa. Para melhorar a sociedade! Dessa forma as pessoas irão comprar a ideia com todo o coração. No momento que são pegos manipulando algo que acreditamos ser espontâneo, é bem provável que perderá a legitimidade e o que poderia ser algo bom (como no caso a luta contra o racismo no futebol) se torna algo ruim (como no caso a comercialização de um ato lamentável).

Espero que da próxima vez que quiserem fazer algo sério sobre o racismo no futebol não fiquem esperando uma oportunidade. Tem que ser feito agora. Tem que ser feito com um único objetivo: melhorar a sociedade onde vivemos.

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