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criativo

“Quem é o tempo todo criativo é idiota”

O cineasta e escritor Kirby Ferguson, convidado frequente de eventos como TED e SXSW para palestras sobre criatividade mídia e tecnologia, publicou em sua página na última semana uma compilação completa de sua série de vídeos intitulada “Everything is a Remix“. A série trata dos diversos tipos de processos criativos (na música, no cinema ou nas artes visuais) e afirma, como o título já aponta, que nada se cria – tudo se copia, transforma e mistura com outras referências. Confira o vídeo, que compila um trabalho dos últimos 5 anos postado pelo cineasta:

Quem trabalha em publicidade, marketing ou comunicação em geral sabe que repertório é imprescindível para quem quer se destacar no mercado – mesmo para quem se destaca fazendo belas misturas e versões de tudo aquilo que foi feito por alguém. Mas a verdade é que tudo o que fazemos é uma repetição de algo que já consumimos, com a adição de outras referências e um toque de visão pessoal. Nem por isso somos incapazes de ser criativos. Os trabalhos mais inventivos da comunicação foram feito, inevitavelmente, com inspiração em outra criação.

 

E foi inspirado neste vídeo (claro) que resolvi abordar algumas inspirações marcantes da publicidade. Mas quero deixar claro desde já que o fato dessas inspirações (às vezes plágio) acontecerem não é indício de falta de criatividade. Mas explicarei isso mais a frente. Veja:

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vivo

O CONAR suspendeu a campanha da Vivo que supostamente plagiava uma arte similar da TIM, usando o mesmo conceito que inseria dentro de uma reprodução 3D do ícone de marca uma série de símbolos e situações que remetem a mensagens que cada empresa anunciava. A Vivo nega o plágio e aponta que a suspensão se deu em razão da possível “confusão” que a campanha poderia gerar entre os clientes das duas operadoras.

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Hello 2015! Our new work with #Apple is in stores everywhere this week and at apple.com 🎉 #startsomethingnew

Uma foto publicada por Craig & Karl (@craigandkarl) em Jan 5, 2015 às 9:34 PST

Esta arte feita para a Apple pelos artistas Craig Redman e Karl Maie (e diversas outras publicadas no Instagram da dupla) lembram em tudo o trabalho do brasileiro Romero Britto, que já inclusive entrou com ação contra eles em razão das similaridades no trabalho.

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Cristian Louboutin

Cristian Louboutin lançou uma campanha inspirada na arte de diversos quadros para sua linha de sapatos usados por celebridades (e gente rica) mundo afora. Na foto, o sapato integra uma peça que mais parece uma pintura de natureza morta.

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E que tal estes dois vídeos? O primeiro é da marca americana Halston divulgando sua coleção de outono/inverno 2009 e o segundo é da campanha de dia das mães da Riachuelo em 2010. Se um não foi inspirado no outro, ambos certamente beberam da mesma fonte.

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E a Coca-Cola, quem diria, se inspirando em uma marca de bebida israelense? As campanhas foram veiculadas com um longo intervalo de diferença mas são conceitos basicamente iguais. De acordo com a Coca-Cola, tratou-se de “uma coincidência que rendeu dois vídeos igualmente divertidos”.

O que esses exemplos têm em comum?

O mais importante a se analisar nestes casos no contexto apresentado no vídeo “Everything is a Remix” não é o quão parecidos eles são ou os aspectos legais de cada um dos casos, mas o processo de criação em si. Estes são exemplos de como as barreiras entre o inspirador e o copiado são tênues e de como as armadilhas no processo de criação podem pegar o mais graduado dos publicitários. A grande verdade é que, como bem colocado no vídeo de Kirby, nada é criativo por apresentar algo inteiramente novo. Se tudo é um remix, então tudo é uma mistura do repertório que o criativo construiu até o momento – inclusive as mais criativas das iniciativas. Resta saber qual é a referência adequada a se usar no momento certo e com o cliente certo. Saber com quais outras referências ela precisa ser combinada e como. Estas misturas é que vão dar o tom de um trabalho e definir o quão inventivo ele realmente é.

Uma boa maneira de concluir este raciocínio (e de dar título a ele também) é citando o mestre Nizan Guanaes que, neste palestra filmada, lançou a seguinte bomba:

Quem é o tempo todo criativo é idiota.

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP