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Quanto vale o suor de um criativo?

A Peralta informa que está abrindo mão da conta de Pirelli por condições de processo e remuneração inaceitáveis.

Com estas palavras, a agência Peralta abriu mão na última quinta-feira, 26 de junho, da conta da Pirelli. A fabricante italiana de pneus tinha sua comunicação atendida no Brasil pela agência desde 2011, quando assinou contrato com a F-1. Os fatos conhecidos até agora, aparentemente, são apenas esses. A Pirelli não se pronunciou até o momento sobre o caso e ainda não há mais informações a respeito de como eram as tais “condições inaceitáveis”. Mas de algumas coisas sabemos, caso tentemos trabalhar com hipóteses. E eu sei como hipóteses podem ser levianas, mas se entendermos que supor não é assumir, não será leviano concluir que:

  • Soltar uma bomba dessa para o mercado é comprar briga com o cliente (ou fugir de uma). E a gente sabe que para qualquer agência minimamente bem-sucedida agir desta forma – em tempos como os de hoje que valorizam tão pouco a comunicação -, normalmente é porque ela tem seus argumentos e razões. Ninguém se queima fácil assim no mercado.
  • A Pirelli não é uma conta low profile. Nem tem passado por grandes dificuldades, aparentemente. Os louros colhidos ultimamente pela empresa italiana estão anunciados em um texto publicado no site da empresa que relata os ganhos que o contrato com a F-1 lhes garantiu de 2011 até 2013.
  • Os processos de comunicação (interna ou externa) fazem parte do êxito de qualquer corporação com o tamanho da Pirelli. Independentemente da qualidade do serviço entregue pela agência, se a companhia obteve êxito durante este período, é admissível pensar que ao menos ALGO entregue funcionou.

Portanto, mesmo sendo errado afirmar qualquer coisa sem conhecer a história a fundo, tudo nos leva a pensar ser um caso de crise gerada em função da relação prazo vs. demanda vs. remuneração. O cliente tem uma demanda 10, precisa que ela seja atendida no prazo 5 a um custo 1. Situação que eu também poderia chamar de crise “quanto vale o suor de um criativo?“.

O caso lembra a velha novela da conta GPA. Caso você tenha perdido esses episódios, um breve resumo:

Em 2014, o GPA finalizou uma polêmica concorrência e escolheu a Havas como agência para suas marcas Pão de Açúcar, Extra, GPA Institucional e de produtos exclusivos. No passado, o grupo inicialmente havia atendido pela house interna PA, por 22 anos. Posteriormente, distribuiu o atendimento de suas contas entre diversas grandes agências. Oito anos depois, em 2005, tornou a centrar suas verbas na house PA. A house se desfez e, este ano, a Havas assumiu as contas. O processo de integração da PA foi concluído: mais de 50% dos profissionais foram contratados pela Havas, que de aproximadamente 230 funcionários passou a contar com 500 colaboradores. Um marco. A empresa, entretanto, acabou demitindo os profissionais de liderança da house.

Em cada fase deste processo todo da conta, a permanência de profissionais da PA (ou daqueles que de alguma forma estivessem ligados à criação de campanhas para o GPA) foi negociada. Isso imprime insegurança e incerteza à rotina de qualquer santo funcionário. Além disso, muito se discutiu sobre o quão justos e aceitáveis eram as cláusulas impressas no contrato da concorrência para a conta do GPA.

Me surge então a velha dúvida que dá nome à crise que citei: quanto vale o talento e o suor de quem trabalha com comunicação?

O caso da Peralta (e de tantas outras contas perdidas no vai-e-vem do mercado) me lembra o do GPA – e acredito não ser muito diferente. A decisão pela desistência da Pirelli pode ter sido radical, mas se essa suposição que faço for real, ela é de certa forma louvável. Pode trazer a seus colaboradores a incerteza que o caso do GPA deve ter trazido na carreira dos publicitários da PA, mas certamente foi tomada em respeito ao valor deles mesmos.

O mercado é ingrato.

Trabalhar em agência muitas vezes (ou sempre?) é ter seu emprego atrelado a um ou a um pequeno grupo de clientes. Este pequeno número de empresas atendidas inviabiliza a segurança financeira das agências – um frio na barriga que até é motivante para alguns e uma garantia a mais de comprometimento para quem contrata. Entretanto, que valor estes profissionais ligados a uma conta representam dentro da agência perante o faturamento do cliente? Que futuro um publicitário pode desejar para si mesmo dentro de uma agência neste cenário? Até onde um profissional pode contar com a confiança no seu potencial diante a perda de uma conta? Normalmente, ele simplesmente não pode. Ele tenta contar, mas acaba se preparando para a mudança.

E mudar pode ser bom? Pode. Mesmo nos diversos relatos de mudanças mais drásticas que leio (inclusive sobre profissionais que largaram a publicidade para partir para outra, comandar um negócio próprio ou se aplicarem a outro tipo de trabalho), a sensação é de vitória, de missão cumprida, de reciclagem. Acredito muito nisso, mas pergunto-me: existe futuro planejado na publicidade? Existe segurança profissional nesse setor que não seja a alcançada por meio da prostituição (moral, de valores ou mesmo física, com o desgaste abusivo do corpo e da mente com o trabalho)? Em outras palavras: talento e dedicação ainda são as principais moedas que nós, profissionais, podemos oferecer em troca de reconhecimento e valor profissional?

Eu acredito que sim. Faço votos de que a decisão da agência Peralta tenha se justificado pela mesma crença.

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP