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michel teló publipost

O que temos a ver com Michel Teló e Thais Fersoza?

Você, que trabalha em um escritório, em home office, ou na rua.
Você que pega no batente às 9h e larga às 18h.
Você que é CLT, PJ ou autônomo.

Você tem uma carreira. Mas quando dá a hora, a chave vira. Você volta para o lar, para a sua vida pessoal. E sim, pode até ser que você responda alguns e-mails de casa, que você fique até mais tarde no trabalho ou que tenha problemas no relacionamento por levar trabalho para casa. Mas você sabe: são coisas diferentes. No máximo, por viver em condições pouco favoráveis, você acaba confundindo uma com a outra às vezes.

Mas e se você fosse uma celebridade? Se fotógrafos te clicassem só porque você resolveu ir á padaria sem pentear o cabelo? E se, além do convênio odontológico que você usa, você tivesse como alternativa frequentar um dentista particular renomado em troca de alguns check-ins no consultório dele?

Afinal: quem somos nós, mortais, para condenar uma celebridade pelas escolhas que ela faz na vida ou na carreira, sendo que vida e carreira de celebridade são coisas que raramente se distanciam?

Faço estas perguntas para introduzir uma reflexão sobre o debate que ganhou a rede envolvendo o cantor Michel Teló e sua esposa, a atriz Thais Fersoza. O casal inaugurou uma categoria de publipost na última quarta-feira que, até então, eu nunca tinha visto no Brasil: o anúncio de gravidez patrocinado:

 

Com as hashtags #publi e #clearblue e exibindo a marca de testes de gravidez com destaque (num post aparentemente íntimo do casal), eles anunciaram para o público que a família estava aumentando.

No post, surgiram comentários criticando a atitude:

– #publi? É isso mesmo produção

– Vários sites tbm noticiaram sobre a publi para um momento tão único que é a gravidez!

– Publi nao é um nome legal para o bebê

E logo a mídia caiu matando também. Ego, HuffPost Brasil e Extra foram só alguns dos portais que noticiaram a ação publicitária no Instagram, muitas vezes dando foco à repercussão negativa. Mas vamos aos fatos:

CONTRAS

Misturar vida pessoal com profissional é um gesto que sempre causa algum transtorno (muitas vezes não para quem mistura, mas causa). Mais: é um comportamento que tende a desencadear tendências. “Se alguém faz isso e – aparentemente – está se dando bem, por que eu não devo fazer também”? Quando o fator pessoal em questão é a gravidez, tudo fica ainda mais espinhoso. Gravidez é um tema que historicamente desencadeia debates aquecidos sobre maternidade, liberdade e autonomia sobre o próprio corpo, feminismo, pressão social, relacionamentos, dentre outros assuntos. Ganhar dinheiro em cima disso (ou de qualquer outro assunto pessoal), para muita gente, significa afirmar que o dinheiro vem à frente de tudo – inclusive de si próprio. E que quem transparece esse complexo de Midas não é digno de respeito e admiração. Tanto história como ficção são recheados de personagens que justificam e fortalecem esse raciocínio.

PRÓS

Porém, estamos falando de Michel Teló. Michel é um cantor extremamente bem sucedido comercialmente, que já assinou contrato de R$ 2 milhões com a P&G para uma campanha de Oral B, já tentou usar as redes sociais para se promover, promover suas ideias e entrar na onda de protestos (se dando um pouco mal nisso), já marcou presença como jurado no programa The Voice e entrou em mini-tretas com outros jurados… enfim. Estamos falando de alguém vive da venda da sua imagem e da sua música (mais da imagem do que da música, acredito). E antes que isso soe recalcado, eu acho que ele está certo em fazer isso. Pode até ser que a execução não seja das melhores, mas o caminho para um astro sertanejo do perfil dele no Brasil, ao meu ver, não pode ser outro. A música pode ser boa para alguns, péssima para outros, mas uma coisa é certa: o potencial de alcance da música de um artista brasileiro que se aventura no sertanejo jovem acaba elevado a grandes potências quando bem casado à venda da sua imagem. Em outras palavras, um sertanejo do patamar comercial de Michel Teló dificilmente vive só da música. Vive também e principalmente da sua imagem.

CONCLUSÃO

Qualquer um tem o direito de ter sua opinião sobre o caráter ou as escolhas do casal. Mas é preciso compreender que:

  1. Estamos falando de Michel Teló e Thais Fersoza. Não de Caetano Veloso e Marília Pêra. Estamos falando de quem orienta sua arte pelo êxito comercial (e não o inverso).
  2. Eles não usaram um publipost para contar a novidade aos seus pais, parentes, amigos e colegas. Não, estes certamente souberam antes, da mesma forma como você fica sabendo de qualquer gravidez. Passaram pelas alegrias do momento, devem ter abraçado o casal, torcido por eles, tocado a barriga da nova mamãe… todo aquele roteiro. Um momento íntimo, que com certeza foi mágico e preservado, como é com todo casal convencional.

O publipost serviu para contar a novidade ao público. E fã nenhum podia esperar um telefonema do Teló ou da Thais contando “ei, você não sabe! Estamos grávidos!“. O que eles fizeram ali é o que ele fazem em toda a sua carreira: vender sua imagem para o seu público. No caso do Teló, ele sempre o fez tendo a música como pano de fundo. Ali, a diferença foi que ao invés de entregar música enquanto se promove, ele entregou um anúncio de gravidez. E verdade seja dita: há músicas que expressam sentimentos tão íntimos quanto a sensação de encarar um teste de gravidez positivo. Talvez não as de Teló, mas há. Ninguém nunca foi criticado por compor sobre a perda da virgindade ou a morte de um ente querido, por exemplo, mesmo que o interesse com essas composições fosse meramente comercial e não artístico.

E ser pago previamente para isso, ainda por cima? Eu não poderia ter sido mais criativo.

Não há muito o que ser condenado no caso. E se há, certamente está sendo condenado só por nós, profissionais de comunicação. Porque o que os veículos que noticiaram o caso ignoraram é que, embora as críticas tenham surgido, a maioria esmagadora de comentários nas fotos do casal é positiva. Fãs desejando alegrias e saúde para o bebê, alguns até saindo em defesa do casal nesta polêmica.

Agora me responda: quando foi a última vez que você pagou para ir a um show do Michel ou para ouvir sua música? Quando foi que você acompanhou diariamente a evolução de um personagem da Thais em uma de suas novelas? Se a base de fãs do casal aprova o publipost (que não fere a liberdade nem a privacidade de mais ninguém), o que nós, julgadores do universo, temos a ver com isso?

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP