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Termos de Uso do Instagram

O paradoxo do universo em exposição e a busca por privacidade

Termos de Uso do Instagram

Entra ano, sai ano, em algum momento acontece uma polêmica sobre a questão da nossa privacidade nos diferentes ambientes na web. Um ano é o Facebook, outro o Google e agora o Instagram. Nós entramos nesses locais virtuais por vontade própria, compartilhamos diversas informações a respeito da nossa vida e tudo isso sem ler os famosos termos de contrato e privacidade. Só nos preocupamos quando somos avisados das mudanças. Então, porque ficamos revoltados por mudanças se antes nós não tínhamos nem a mínima ideia do que diziam os termos?

Nossa realidade é uma questão de percepções baseadas nas nossas crenças e nas nossas atitudes. O mundo se molda ao nosso redor a partir de informações que na maioria das vezes são capturadas no nosso inconsciente. Quando as nossas crenças encontram uma pedra no caminho, acontece a famosa “dissonância cognitiva“, o que acreditávamos não é mais a mesma coisa e daí reagimos a esse estimulo. Algumas vezes nossa reação é positiva e em outras negativa, como é no caso de sentirmos nossa privacidade sendo ameaçada.

Então, vamos pensar o seguinte: eu escolhi entrar no Facebook, nunca li os termos que seriam de meu interesse e acho que está tudo tranquilo. As pessoas se sentem seguras, se sentem confortáveis, não sentem que sua privacidade é invadida e publicam muitas informações na rede. Acontece que tudo que fazemos deixa rastro e eles ficam em algum lugar. As grandes empresas, como o Google, afirmam que tem um período determinado de tempo que aquilo fica em seus servidores, mas de qualquer maneira deixamos rastros. Não vemos isso e por isso não nos afeta, não percebemos, não se forma tangível na nossa realidade. Pra nos sentirmos mais seguros colocamos que nossas informações serão vistas apenas por amigos, mas daí quem é que tem menos de 100 amigos no Facebook? Em geral consideramos amigos pessoas que conhecemos, mas as vezes basta um simples contato em uma festa e ela está lá, como nossa amiga. Nossa base vai aumentando, vai expandindo e continuamos compartilhando nossa vida. Não nos afeta, ninguém bate na nossa porta porque nos achou no Facebook e isso nos dá uma ideia de segurança.

Apesar de todas as medidas que podemos tomar, esquecemos que aquilo tudo é só a maneira como estamos percebendo nossa privacidade. Quem nunca passou por uma situação onde foi mostrar uma foto para algum amigo, manda o link e a pessoa diz: “não consigo ver, está bloqueado”. O que se faz? Vai na foto, clica para abrir a URL da imagem e podemos mostrar pra todo mundo aquilo. Eu apostaria que se o Facebook mandasse um aviso dizendo sobre essa possibilidade, pela primeira vez iríamos pensar a respeito de como isso “invade nossa privacidade” e mais outra revolta iria acontecer. Temos que separar as questões legais sobre privacidade, aquelas que vão dizer tudo o que uma parte pode fazer com as informações e as questões práticas que vai depender de como vemos o mundo.

Tem gente que não consegue viajar e compartilhar um quarto de hostel porque acha que aquilo invade a privacidade, mas muitas outras conseguem. Alguns tem dificuldade de usar banheiros públicos e outros não. Alguns tem problemas quando uma mídia social lança uma notificação para se proteger de algo que já deveria fazer de certa maneira e outros não se importam. O que temos que começar a fazer antes de criar uma revolta é pensar que eles não nos obrigam a nada, se não concordarmos podemos sair e tudo que está nos termos deixa de valer. Já se perguntaram se vocês entrariam no Facebook ou usariam produtos do Google se antes tivessem lido os termos para se cadastrar? Diria que a maioria não ia nem cogitar a possibilidade.

Não vou entrar aqui no mérito de querermos tudo de graça e não considerarmos que as empresas que fornecem o serviço precisam de receita, talvez isso pode ser assunto para outro post. Só acho que quando nos revoltamos por questões de privacidade deveríamos antes fazer a nossa parte e sempre nos preocupar com isso. Que moral temos para reclamar quando nunca lemos os termos? Quando só fazemos isso na hora que dizem que algo mudou (e nem sabemos como era antes)? Quando publicamos tanta informação por livre e espontânea vontade numa rede que os rastros ficam por algum tempo?

Nossa sociedade se expõe cada vez mais e exige cada vez mais privacidade. São coisas opostas! Por isso que é uma questão de percepção! O que é privacidade pra um não é pra outro! Temos que aprender de uma vez por todas que nada é de graça! De alguma forma essas empresas tem que faturar e o negócio mais rentável é vendendo informações sobre os usuários para que empresas entreguem os melhores anúncios. Não é isso que sempre fizemos com pesquisas de mercado? Não é isso que fazemos quando monitoramos o comportamento das pessoas nas diferentes redes? Não invadimos a privacidade dos nossos clientes a buscar por termos relacionados com nossa marca? Sim, fazemos isso e usamos essas informações comercialmente!

Aqui no Brasil em qualquer loja nos pedem CPF e RG. Damos essas informações sem nenhum problema, mas quando dizem que vão usar nossas atividades na web para ser uma forma de receita, nos revoltamos! É muito mais perigoso nosso CPF e RG parar nas mãos de pessoas erradas do que o fato de que eu curti a página da Coca-Cola. Claro que devemos tomar cuidado, mas temos que estar cientes que não temos como expor nossa vida (mesmo com todos os filtros possíveis) e achar que assim teremos privacidade.

No fim, o Instagram nunca disse que iria vender nossas fotos. Quando li os termos a primeira coisa que eu entendi, e que para mim estava claro, era que eles usariam toda informação de nossas atividades na rede deles para vender a empresas que quisessem anunciar. Naquele momento lembrei das “Histórias Patrocinadas” do Facebook. Passei então a perceber que todas as informações sobre o “Instagram vender as fotos” deve ter começado por alguém que não entendeu e compartilhou, isso foi se expandindo, chegando a meios de comunicação, que foram replicando e o caos estava formado. Sabemos que hoje a grande maioria das pessoas consome informação em forma de “tweet”, mais que 140 caracteres é muito para ler. Com isso nossa realidade é afetada por uma informação que nem sempre é certa e acontece tudo que descrevi no início desse texto.

E o que as empresas e os profissionais de comunicação devem aprender com essas crises? Quando vamos tratar de alguma mudança, temos que ter sempre clareza, temos que fazer relação com o que as pessoas já conhecem. Poderiam ter feito referência a maneira que o Facebook já trabalha e não seria tão caótica a situação. Os termos complexos podem e devem estar descritos por questões legais, mas a maneira de comunicar isso tem que ser diferente. E o que nós podemos fazer para que isso não nos afete tanto? Aprender que a única maneira de nos protegermos de fato é baseada no que fazemos e não no que os outros irão fazer por nós. Temos que ter consciência de que a realidade é formada pela nossa percepção de mundo e por isso temos que sempre buscar todas as informações possíveis antes de ter uma opinião! Quando nos equivocamos nisso, geralmente causamos problemas.

Para finalizar indico esse texto do site The Verge: “No, Instagram can’t sell your photos: what the new terms of service really mean“.

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