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Mulheres no comando de 1/3 das agências em SP

Uma matéria publicada na edição do jornal Propaganda & Marketing desta segunda-feira, 29 de setembro, traz o resultado de uma pesquisa resultado de uma pesquisa do Sinapro-SP (Sindicato das Agências de Propaganda de São Paulo) que retrata o cenário do mercado publicitário no estado que concentra o maior número de agências de publicidade do país, bem como das agências de maior faturamento. Falar de publicidade em São Paulo não é exatamente o mesmo que falar de publicidade no país – o mercado não inclui algumas das mais criativas e bem sucedidas agências, com sede em outros estados. Mas é, sim, um indicador do setor nacional, não apenas por agregar o maior número de empresas, mas principalmente por receber a maior fatia do investimento publicitário.

Dentre diversos dados revelados pelo levantamento, descobri que, em médias, as agências ainda estão nas mãos de um pequeno grupo de clientes (12 clientes e 16 contas, em média). Descobri também que, para minha surpresa, a média salarial no estado é de R$ 5.284,00 (informação que, aposto, só é afirmada porque a pesquisa conta com a minoria de dirigentes e diretores de agências no seu universo. Do contrário, seria bem diferente).

Métodos estatísticos e de seleção a parte, eu não duvido do resultado apresentado pela matéria. Mas um número me chocou, sim. Dos dirigentes de agências no mercado paulista, 74% são homens, 26% são mulheres. Trata-se não apenas de uma maioria masculina, mas de quase uma dominação do setor.

Analise sua sala de aula, caso ainda esteja na universidade. Se não estiver, tente se lembrar da sua. E responda: a maioria é ou era formada por homens ou mulheres? Sua conclusão muito provavelmente será a de que eram mais mulheres. É bem provável que mesmo que você tenha se formado em outras áreas da comunicação, a resposta continue sendo a mesma. E é também curioso: mulheres são responsáveis por 85% das decisões sobre o consumo doméstico. Provavelmente conhecem mais hos hábitos de compra do que os próprios homens.  Mulheres tradicionalmente são mais intuitivas, multitaskers, comunicativas e interessadas por comunicação e arte.

Não é de se admirar que, mesmo sendo em maior número nas salas do curso de publicidade, as mulherem não estejam em vantagem (ou ao menos em equilíbrio) nos cargos de decisão nas agências? 48% de vantagem percentual é um número expressivo demais para não ser, ao menos interpretado e estudado.

A primeira interpretação que eu faço deste dado é negativa e está relacionada a outro resultado da pesquisa. A média de idade dos dirigentes no segmento apresentada pelo estudo é de 44 anos. Já de anos na profissão, a média é 21. E vivemos, ainda, em um país que pressiona mulheres a casarem, terem filhos, serem mães exemplares, serem amigas, serem esposas, serem belas, serem magras, serem inteligentes… tudo isso estando à frente dos negócios. Conseguem? Sim, muitas conseguem. Mas a grande verdade é que durante estes 21 anos que o homem passa tentando conquistar seu lugar ao sol, mulheres são coagidas a simplesmente desistirem de achar o seu. São coagidas por seus parceiros, por amigos, pela família, pela maternidade, pela sociedade ou por si mesmas. Muitas sucumbem à pressão e cedem. As mais resilientes sobrevivem e, provavelmente, integram estes 26%.

A segunda interpretação que faço deste dado, entretanto, é positiva. Talvez justamente em uma consequência brutal da pressão descrita, mulheres tendem a assumir mais riscos e a se lançarem: são mais empreendedoras. Segundo o Sebrae e a pesquisa Global Enterpreneurship Monitor de fevereiro de 2014, 52% dos empresários com menos de 3 anos e meio de atividade são do sexo feminino.

Elas estão deixando de empreender apenas para complementar a renda da família ou por consequência de um passatempo”, reforça o presidente do Sebrae, Luiz Barreto. Mesmo em um cenário praticamente de pleno emprego, em todas as regiões do país a maioria das mulheres que conduzem suas próprias empresas são movidas pela oportunidade e não pela falta de alternativas.

O que quero destacar é que que mulheres talvez estejam mais aptas a rever suas escolhas de vida, a não terem tanto receio ao deixar uma carreira de 21 anos de escanteio e seguir novos rumos, orientados por uma oportunidade. Em outras palavras, talvez elas estejam mais dispostas a buscarem aquilo que as satisfaz. E resiliência serve para isso também.

Sendo assim, fica a mensagem para você, publicitário que lê este texto: as coisas são menos difíceis para você. O mercado conspira tremendamente a seu favor – e isso não é legal. Talvez seja a sua deixa para começar a agir e pensar de forma mais igualitária e a repensar no potencial feminino da equipe.

E fica também a mensagem para você, publicitária que lê este texto: dos 17 jurados de Cannes deste ano, 4 são mulheres. Infelizmente, tudo ainda tende a ser um pouco mais complicado e injusto para você. Por outro lado, é você também quem detém os meios para se mostrar superior a estas barreiras e a quebrá-las para que, no futuro, outras não precisem passar por isso. E no final das contas, se o seu rumo der uma guinada, não será obrigatoriamente um sinal de fracasso. Há mais chances disso ser, justamente, um indício de vitória.

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP