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Mídia exterior com bom senso

Essa é uma reflexão que só é válida porque eu saí de São Paulo. Por acaso, vim morar em Bonn, na Alemanha. Mas eu tenho ciência de que ela seria válida se eu tivesse ido morar em qualquer outra cidade – inclusive do Brasil – que não São Paulo. Por isso, eu me sinto um pouco amador ao escrever algo tão óbvio pra quem não for paulistano. Mas é que o óbvio nos foge aos olhos e às reflexões.

Mídia exterior na Alemanha

Aqui vai então uma conclusão óbvia que eu relembrei ao chegar aqui no velho continente:

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A CIDADE É UM PAINEL

O Brasil já dá seus passos no uso do espaço urbano para a arte. Posso falar com mais propriedade de São Paulo que em regiões como o Centro, Pinheiros e Vila Madalena conta com murais de pinturas gigantes que ganham destaque na paisagem. Mas sei que Rio de Janeiro e outras capitais também já cedem alguns de seus paredões para a arte. E é inusitado perceber que também é possível achar diversos murais como este acima em uma cidade como Bonn. Ainda que esteja na Alemanha e que tenha sua relevância, é uma cidade de 325 mil habitantes. Em uma breve caminhada, não é difícil encontrar trabalhos em grande ou pequenas proporções pela cidade – em pontos visíveis ou, em vários casos, mais escondidos.

Mas eis aqui a questão que me faz me sentir amador: aqui não tem Lei Cidade Limpa (aquela lei que proíbe regulamenta a mídia exterior na cidade de São Paulo) e eu estava mesmo acostumado a viver numa cidade sem intervenções na paisagem que não fossem as artísticas. Não encontrei informações a respeito das leis que regulamentem a mídia exterior na Alemanha. Estou certo de que elas existem e de que são rígidas. Mas é visível que a relação da publicidade com a cidade é bastante diferente.

Ao chegar aqui, de cara, vem o baque que qualquer paulistano sente ao sair de São Paulo: a propaganda de fato muda a cara da cidade. Quando a Lei Cidade Limpa foi aprovada, eu fui radicalmente contra. Era fã do trabalho que algumas agências faziam com a mídia exterior (ainda sou) com empenas cegas, backlights e frontlights incríveis. Sem falar nos postos de trabalho que foram encerrados e na perda para a economia. Mas foi só passar um tempo sem painéis interferindo na visão panorâmica e eu pude compreender que a mídia havia se apropriado demais do visual de São Paulo mesmo. Especialmente nos bairros do centro expandido e periféricos, onde algumas ruas viravam páginas de classificados, abarrotadas de placas, faixas e sinais luminosos. Esse tempo se foi (resiste em alguns locais, mas se foi, oficialmente). E toda vez que a gente sai de São Paulo, a gente tem um revival do que foi a cidade no começo dos anos 2000.

Aqui não foi diferente. Houve o revival, houve o baque. Mas não dá pra dizer que a mídia exterior exagera na apropriação visual de espaços públicos (com raras exceções, como a imagem do empena cega abaixo, que anuncia os estacionamentos das lojas Expert e Obi). No geral, não há tantos excessos, não há luminosos escandalosos, não há bagunça visual a la “Times Square”. Empenas e pinturas são as plataformas de mídia exterior que mais ganham espaço por aqui:

 

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Estão por todo lado

 

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Alguns são até simpáticos
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Outros pesam a mão e deixam tudo mais feio mesmo

Nem por isso dá pra afirmar que a mídia local não comete pecados tenebrosos. Alguns são bem familiares a nós, brasileiros. Em coisa de uma semana, eu já dei de cara com esses dois abaixo:

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Quando o homem vira mídia pra poder se sustentar 🙁

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Lembra de quando chegam as eleições e você esbarra em placas por toda calçada? Então, aqui pelo menos elas parecem ser mais bonitas. Mas ainda são condenáveis!

Embora essas mídias estejam bastante presentes, acredito que a gente sinta menos o impacto visual em razão de toda a compensação que a cidade oferece. E há compensação MESMO. Além de a cidade manter boa parte da sua arquitetura original, com lindos prédios antigos que têm mais história pra contar do que qualquer bisavô, ela também compensa com o verde. Há muita vegetação por todos os lados. Um exemplo de como isso funciona é a linha de trens de grande porte que corta o centro da cidade. Na maioria das cidades do Brasil, as linhas de trens urbanas são separadas das ruas de tráfego de carros e pessoas por muros de concreto ou grades. Aqui, em alguns trechos próximos de casas, ela é “isolada” por um paredão verde. Arbustos que impedem que as pessoas passem para dentro da linha e que diminuem o impacto visual negativo dos trilhos. O mesmo efeito pode ser levado em conta na proporção entre o verde e a mídia exterior, que quase nunca extrapola o seu limite a ponto de chamar mais atenção do que a paisagem natural.

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Centro antigo
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Centro antigo
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Visão do Google Earth da linha do trem (com o “paredão verde” em destaque com cores)

 

A conclusão a que este primeiro mês aqui me permitiu chegar é que apesar da mídia exterior normalmente impactar de forma negativa no landscape, dá pra ver que há respeito aos limites do bom senso. Nada de “faixas sobrepondo painéis luminosos sobrepondo placas”. Nada de projeções monumentais em grandes torres comerciais – até porque a cidade não deve ter mais que 5 torres comerciais mais altas. O que a gente vê é uma apropriação minimamente responsável do visual da cidade, que às vezes pesa na mão mas que até agora não se mostrou de forma bizarra.

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP