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Mídia na Alemanha sem tabus: sexo e cigarro

Na última semana, você leu aqui o primero post a respeito de campanhas veiculadas na Alemanha que talvez não fossem ser tão bem aceitas no Brasil. Elas exploram conceitos ou estilos com os quais o público brasileiro não se identifica, na maior parte das vezes por razões culturais. Hoje, você confere a segunda parte do post, em que exploro especificamente outros dois assuntos tidos como tabu: sexo e cigarro.

 

Pra começo de conversa, sexo é tabu na América, mas aqui não. Como você conferiu no primeiro post, a nudez por aqui é encarada com muito mais naturalidade do que no Brasil. Quem assistiu à série Sense8, do Netflix, que explora essas diferenças culturais, sabe do que falo. Aqui em Bonn, por exemplo, o sexo vai parar inclusive em campanhas de mídia exterior de grandes centros comerciais:

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“Eficiente é economizar energia. Não calor.”

A campanha acima é do Ministério de Economia e Energia. Ela promove a modernização dos sistemas de aquecimento caseiros em prol da economia de energia. Para isso, diz como afirmação básica que você não precisa “esfriar” o sexo para economizar energia. Pode substituir seu aquecedor velho e abusar do “calor”. No caso, pode fazer isso a três, inclusive.

A expressão dos atores é quase ingênua. Ingênua como a expressão de quem passa na rua, vê a campanha e segue sua vida. Observa o sexo a três retratado e tá tudo bem. Mas é claro, sexo é natural! E é natural em qualquer lugar do planeta. É que aqui as pessoas parecem compreender mais isso. É como se o lugar nos passasse a mensagem: “sexo a dois, a três, com homem, com mulher, tântrico, romântico, selvagem… cada um sabe de si. Não invadindo a liberdade alheia, você é livre para fazer o que quiser – e isso não é tabu algum nem deve ser“.

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Mais uma campanha de interesse público – desta vez promovendo a prevenção contra DSTs, veiculada em Frankfurt.
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Saunas são bastante divulgadas por aqui também. Sexismos absurdos à parte, que tal passar no “maior sauna club da Europa”, em Düsseldorf?

Se por uma lado é natural que pessoas de qualquer idade e gênero sejam impactadas aqui com mensagens sobre sexo (naturais ou mais obscenas, como no caso acima), por outro, o cigarro já é tema de discussões acaloradas por aqui. A Alemanha é o único país da União Europeia onde a propaganda tabagista não é proibida ou não sofre sanções punitivas ou preventivas. Mas esta situação pode mudar com a pressão feita por outros países do bloco. Possivelmente em razão do apreço pela liberdade e individualidade de cada um, a Alemanha ainda deixa a escolha do hábito de consumo de cigarros nas mãos dos cidadãos. O resultado é um cenário bastante diferente do brasileiro: fuma-se muito mais aqui. Homens, mulheres, de todas as idades. Alguns clubes e bares ainda permitem o fumo em ambientes fechados – o que é nostálgico para qualquer fumante brasileiro com mais de 30 anos, mas desagradável para a maioria das outras pessoas.

Aqui em Bonn, o acesso ao cigarro também é muito mais fácil do que no Brasil. Encontra-se máquinas que vendem cigarros em toda esquina – diferente do Brasil onde normalmente um vendedor é responsável por fazer a venda – e checar a idade do comprador, por exemplo. Como não poderia deixar de ser, o cigarro também toma conta da mídia exterior e vende ainda aquele glamour que vendia no Brasil até a década de 90:

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Atenção para o preço: 6 euros! É uma indústria que movimenta bastante dinheiro por aqui.

E se sexo e cigarro (às vezes somados a sexismo) para você não forem exemplos de tabus explorados sem grandes restrições na publicidade alemã, o que dizer desta campanha que consegue acertar nos três (cigarro, sexo AND sexismo) de uma só vez?

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Difícil é afirmar se a liberdade de uso de temas na publicidade aqui é algo positivo ou negativo. Mas o que fica claro de cara é: assuntos vistos como tabu no Brasil em razão do papel social e cultural da propaganda são vistos com muito mais naturalidade por aqui. Um bom tema de debate para um post futuro – que prometo ainda trazer para cá – é a relevância que o alemão dá para a publicidade como formadora de opinião e educadora. Pelo visto, é um papel diferente – provavelmente menos importante – do que o que ela assume na América.

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP