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Hisptervention

Hipstervention: campanha da Bic tira sarro de barbas hipsters

Na vida, tudo é mesmo uma questão de escolha. Raramente a gente consegue dizer o que é uma escolha certa e o que é uma escolha errada, normalmente porque em um cenário convencional de decisão não dá pra saber qual seria o resultado se outra opção fosse a escolhida. Mas aqui neste caso da Bic a gente consegue ter uma ideia.

Há aproximadamente duas semanas, a BIC lançou nova campanha intitulada Hipstervention. Com humor, a marca divulga a lâmina BicFlex 3 trazendo a história de uma mãe que, inconformada com o estilo hipster do filho e com a enorme barba que ele passou a cultivar, organiza um “movimento” entre os mais próximos do rapaz para motivá-lo a tirar a barba.

“Faça a Barba. Salve o Mundo.”

Com esta assinatura, a campanha da McCann Melbourne conta com conteúdo produzido para redes sociais e mídia impressa, além de um site que dá dicas para pessoas que queiram promover uma hipstervention com algum amigo.

A ideia tem lá seus pontos positivos. O vídeo é bem produzido, conta com algum humor (relativamente duvidoso, mas vá lá. “Bom humor” sempre foi e será um conceito turvo e subjetivo) e transmite a mensagem com eficiência. Alguns comentários que encontrei pela web fazendo uma rápida busca defendem a campanha, sua ironia e a indagação feita sobre a tendência tão cultuada (e ao mesmo tempo questionada) das longas barbas hipsters.

 

A maioria dos comentários, porém, é negativa. E eu me encaixo nos que têm mais a criticar do que a elogiar sobre este vídeo – embora reconheça que ele tem seus diferenciais. E digo desde já: ao escrever isso, estou tentando ignorar o fato de eu uso barba, e com certo orgulho. Mas me dê uma chance e continue lendo: a minha barba é curtinha!

O que há de errado com barbas?

Fazer propaganda satirizando ou criticando algo é para poucos. Como disse no começo do texto, a Bic podia escolher seguir por outro caminho e acabou optando por esse. Acho que ela merece palmas por isso. Não é o caminho mais fácil. Mas me pergunto quais motivos os levaram a fazê-lo. Uma análise mais superficial me leva a crer que o raciocínio foi: quem usa barba não faz barba. Ou pelo menos não faz tanto quanto quem não usa, que diariamente (ou com certa frequência) precisa se barbar para trabalhar ou simplesmente porque assim prefere. Se esta foi a ideia, foi um belo de um tiro no pé. O raciocínio pode até ser correto, mas deixa de lado toda a simbologia que a barba representa para os homens e seus efeitos nos hábitos de vida e, principalmente, de consumo.

Veja: barbas historicamente são consideradas como uma espécie de autoafirmação. Um marco contra o sistema, um ícone de personalidade. Fato ou não, é o que se vendeu por muitos anos até aqui. A indústria fashion vende barbas assim, o cinema vende barbas assim, a TV vende barbas assim. O vilão usa barba, o mocinho não. O bad-boy usa barba, o inocente não. E em quais desses estereótipos a maioria dos homens se espelha? No mocinho? Não. Independente de se com barba ou sem barba, não dá para negar que as personalidades vendidas com barba são muito mais interessantes.

E o que o vídeo faz? Ele tira sarro da moda hipster (ok, ela irrita muita gente aqui ou acolá) e transforma o personagem central numa espécie de “modelo de homem desejado pela mamãe”. E embora seja nisso que muitos se transformam, não é esse o modelo almejado pela maioria dos homens – homossexuais ou heterossexuais. Se comunicação é falar com o consumidor através dos seus anseios e emoções, esse exemplo de campanha parece não fazer isso direito.

Sejamos sinceros: quantos homens você acha que gostariam de ser assim?

barba feita

E minha crítica não é contra o humor usado para ironizar a moda hipster. Pelo contrário, acho que ele é o que salva. O problema é o produto final. Uma boa alternativa seria apresentar um modelo de homem sem barba que se impõe, que é tão seguro de si quanto o barbudo, tão “macho alfa” quando o barbudo – apesar de eu entender que isso já foi explorado à exaustão pelas marcas de barbeadores, com jogadores e futebol como Cristiano Ronaldo e etc. Mas sempre foi feito com uma estética bastante duvidosa e colocando o homem em um papel meio antiquado (relacionando essa segurança e autoafirmação a situações como “ter grana e pegar mulher”. Neste vídeo, a mensagem muda e o discurso antiquado não – quando interessante mesmo seria fazer o inverso: continuar vendendo o homem seguro de si sob uma outra perspectiva. Isso talvez pudesse gerar identificação, não um pseudo-nerd.

Há pelo menos umas 10 formas de tornar essa ideia melhor. Mas, como eu disse, a vida é feita de escolhas. Não dá para saber como teria sido se a Bic tivesse optado por outra. Mas acho que dá para afirmar que teria sido melhor.

Em tempo:

Barbudos usam lâmina de barbear, muitas vezes mais do que quem não usa barba. Às vezes, um barbudo compra mais lâminas para “desenhar” a barba do que alguém que não tem barba ou que tem pêlos que simplesmente não crescem muito (consequentemente acaba usando menos, em áreas pontuais do rosto). Espero que tenham feito alguma análise desse aspecto antes de lançar a campanha também.

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP