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Comunicação de órgãos públicos: tem como não amar a Prefs?

Há tempos eu venho tentando escrever sobre isso. Nunca faço – ou porque aparece alguma coisa interessante e momentânea na frente, ou porque não tenho tempo, ou simplesmente porque acho que não é o momento. O resultado disso é que a esta altura você já deve ter ouvido falar da Prefs – como se intitula a própria Prefeitura de Curitiba em sua página no Facebook. Se não ouviu, nem preciso dizer que está perdendo muita coisa.

Em resumo: a página passou a tratar de temas cotidianos na prefeitura adotando uma linguagem nada convencional, quando se fala de órgãos públicos. Fazendo uso de memes (gerando alguns, inclusive), montagens, piadas e linguagem coloquial, ela aborda de maneira menos sisuda assuntos como dicas de segurança, projetos sociais, efemérides oficialmente comemoradas, além de temas bastante… triviais, eu diria.

prefsA página inspirou outras prefeituras a entrar na dança e a deixarem o linguajar quadrado para trás nas redes sociais. Curitiba veio interagindo com páginas oficiais como a de Santos, em São Paulo, e a última que está dando o que falar é a do Rio de janeiro. A página da prefeitura carioca pediu a de Curitiba casamento. A colega curitibana, entretanto, ainda não aceitou, mesmo sob pressão de internautas que fazem campanha pelo “sim” e com o aval do perfil Dilma Bolada, que já declarou em resposta a um dos posts que “oficializaria a união”. A brincadeira acaba virando uma forma do órgão divulgar algumas de suas ações e inaugurações.

Piadas à parte, a Prefeitura de Curitiba conseguiu um feito que há muito não se conseguia governo do país: chamar a atenção de jovens para a comunicação de órgãos públicos. E é aqui que eu queria chegar.

Quem trabalha em empresa pública ou lida com alguma delas sabe que a comunicação na maioria dos casos é uma “máquina” que assume um perfil antiquado e padrão, seja em ambiente interno ou externo. Nos processos comunicacionais, métodos e hábitos foram adotados por razões condizentes, como o fato do governo prestar serviços à sociedade. Cada decisão tomada por ele exerce influência direta na vida de todo brasileiro e a opção pela linguagem usada na comunicação não é diferente de qualquer outra decisão no setor. Impacta na minha vida e na sua.

Talvez por isso, as campanhas sejam forradas de clichês, mensagens pouco criativas e exageradamente explícitas. É uma forma de democratizar a compreensão. Mas é também, ao meu ver, uma ofensa à inteligência do brasileiro. O que a Prefeitura de Curitiba faz ao utilizar esta linguagem é quebrar o antigo vício da comunicação no setor de tratar da mesma forma mensagens dirigidas ao leitor de uma revista, ao telespectador de um anúncio, ao ouvinte de um spot, ao internauta, ao transeunte ou ao colaborador que lê um e-mail interno. Opta-se pelo formato mais seguro (ao mesmo tempo mais carregado e antiquado) e deixa-se de lado a proximidade com o cidadão. A “Prefs” certamente entende que, se o cidadão curtiu a página, subentende-se que de alguma forma ele tem acesso à internet e ao Facebook. Por que abdicar daquilo que é comum ao Facebook na hora de escrever para replicar o mesmo discurso da TV, por exemplo? O destinatário da mensagem está apto a compreender ao menos um meme!

Há quem critique a postura adotada pelo órgão. Quem aponte que este tipo de ação “não resolve nada”, “não passa de marketing” ou “maquia informações mais relevantes”.

Não resolve nada? Não sei, pode ser que não resolva muita coisa. Mas ajuda na compreensão de mensagens transmitidas. Então, sim, resolve algo.

Não passa de marketing? Hmm, acho que passa. É marketing, claro, mas é também uma renovação no vínculo com o cidadão.

Maquia informações mais relevantes? Não sei dizer. Mas o que sei dizer é: aquilo que se fazia até então no país já maqueava muita coisa que ninguém percebia. Quando se pede por mudança no setor público, deve-se encarar a mudança em todo o seu espectro. E mudança passa pela comunicação, sim.

Pode ser que esta “brincadeira”, como a maioria das que surgem pela internet, não dure muito. Pode ser que todas as outras prefeituras adotem essa linguagem que passaria a ser comum ou que ela simplesmente seja esquecida. Mas o que há de positivo nisso e que eu gostaria de ressaltar é que alguém, algum dia, sentou na frente do seu computador, repassou os textos de campanha para as plataformas digitais na cidade de Curitiba e pensou: “não dá. Isso não funciona. Vou fazer diferente”. Mesmo que não dê certo, este é o primeiro passo para encontrar aquilo que dá. E veja bem: agir assim é inspirador. Agir assim faz escola:

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP