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Complexo de Calipso

Freud explicaria. E sua análise confirmaria minha tese de que a psique do negócio tem no Complexo de Calipso a raiz de quase todas as suas pulsões.

Freud explicaria. E sua análise confirmaria minha tese de que a psique do negócio tem no Complexo de Calipso a raiz de quase todas as suas pulsões.

Vamos lá. Odisseu, vulgo Ulisses, só queria chegar em casa depois de uma jornada homérica. Mas, lá pelas tantas, acidentalmente foi parar na ilha de Ogígia, casa da ninfa Calipso.

 

Imagino a cara dele ao se deparar, na praia, ainda meio zonzo, com aquele mulherão literalmente divino. Sorriso branco como aqueles de reclame de creme dental. Cabelos sedosos como os de comercial de xampu. Pele lisa e sem irritação como em anúncios de depiladores, macia como nas propagandas de creme hidratante e de uma juventude eterna como a indústria cosmética ainda não sabe como prometer. Isso sem falar no corpão de Panicat à la anúncio de academia e nas unhas pintadas de vermelho “Você é Meu”.

Resumindo, Odisseu pensou que tivesse caído num comercial de cerveja.

E a cada passo, uma nova surpresa. Era uma locação paradisíaca. Luz, fotografia. Tudo padrão Cannes. Com direito a bosque, fontes naturais e uma gruta com amplos salões.

Por toda parte e para todos os gostos, havia outras ninfas. Parecia casting para alguma marca de lingerie. Elas passavam o dia inteiro tecendo e cantando. E se engana quem pensa que, quando soltavam a voz, era “Acelerou, acelerou, acelerou, acelerou meu coração!” que se ouvia. Pelo contrário, eram os mais belos jingles.

E o marketing de relacionamento foi ainda mais longe. Calipso não só acolheu como se apaixonou pelo cara, prometendo a ele, caso ficasse com ela, nada menos que a imortalidade.

Aí você pensa: “Cara sortudo.”

Mas ele só queria voltar pra casa. Só isso. Mesmo assim, ela insistia. Não podia aceitar uma recusa à sua sedução. Já ele, não tinha a quem recorrer. Não tinha pra onde ir. E ficou lá preso por sete anos. Sim, sete longos anos preso em um comercial de cerveja com a garota-propaganda dando mole.

Deu tempo pra muita coisa, como perceber que algumas das beldades, de tão retocadas, não tinham umbigo, ter alguma intimidade e até ceder, pelo menos, quatro vezes ao call to action – leia-se: ter quatro filhos com Calipso.

(Haja Síndrome de Estocolmo! Mas não vamos entrar em outro problema psíquico.)

Foi só depois desse tempo todo que as reclamações da deusa Atena (uma mulher empoderada), que assistia tudo, foram ouvidas pelo Conselho de Autorregulamentação do Olimpo, que considerou os apelos de Calipso abusivos e a condenou suspendê-los, deixando, assim, o náufrago partir.

Essa foi a primeira campanha publicitária que se teve notícia.

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