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mundo digital alemão

O admirável bizarro mundo digital alemão

Aqui vai uma história fictícia que pode ajudar a ilustrar a ideia central deste texto:

“Digamos que você é um rapaz de vinte e poucos anos. Você está em casa estudando aqueles PDFs eternos que recebeu dos seus amigos de aula, do professor ou no trabalho, quando chega via Whatsapp uma mensagem daquela garota. Um “rolo” que não é nem amizade nem namoro, mas que vocês dois fazem questão de manter para si de forma saudável, porque afinal, vocês têm vinte e poucos anos. Ela marca uma ida à sua casa. Você a recebe com o balde de pipoca na mão e a TV no gatilho, pronta para exibir um filme de terror ou drama que você escolheu a dedo e baixou para a ocasião. O filme começa e, meia hora depois, os dois confessam estar odiando o filme. Você prontamente tira o filme da TV e pluga o seu ipod na caixa de som, com a playlist “Hoje à noite tem“, pra criar o clima que o filme não criou. Começa a conversar sobre a vida. Daí dá certo. O clima esquenta. As coisas acontecem. A noite é mágica. FIM”

Essa é uma cena que você possivelmente já pode ter vivido no Brasil. Mas acredite: se você estivesse na Alemanha, sua alegria até poderia ser a mesma, mas sua conta bancária depois de um tempo estaria razoavelmente mais vazia. Você provavelmente seria multado pelas obras literárias baixadas no PDF. Você provavelmente seria multado pelo download ilegal do filme. E você provavelmente também seria multado pelas MP3 que baixou para o seu iPod.

Bem vindo ao cenário do acesso ao conteúdo e à informação digital na Alemanha.

No país, caso você não saiba, as leis de acesso ao conteúdo digital, proteção intelectual e artística são rigorosas e seguidas à risca. Isso significa que o governo local tem controle quase que integral sobre tudo o que você acessa, tudo o que você baixa da rede, tudo o que você sobe para a rede. Se não tem acesso direto à sua conexão, certamente tem pela empresa que oferece o acesso de internet a você. Dessa forma, histórias como esta viram realidade. A abertura automática ou acidental de um programa de compartilhamento via Torrent por poucos minutos já é suficiente para render um multa pesada ao internauta.

 

Não pretendo discutir aqui sobre os impactos positivos e negativos nas questões legais e de direitos autorais desta postura. Para um brasileiro ou cidadão de qualquer país onde o acesso e a transferência de dados online é mais livre ou não obedece a algum tipo de regulamentação rígida, essa conversa pode parecer absurda. Mas é só pensar um pouco que fica clara a razão que essa regra tem para existir: alguém (ou um grupo de pessoas) foi responsável pela produção intelectual do conteúdo que está sendo compartilhado na web. Sendo assim, se esta pessoa não abriu mão dos direitos sobre uso ou reprodução de sua obra, ela deve ser remunerada. Ponto final.

Mas o que acho que vale ressaltar aqui é o quanto esta postura dificulta a difusão da cultura por vias digitais no país e, consequentemente, o nosso trabalho. Imagine que você, criativo, ganha uma transferência para uma agência ou departamento alemão de comunicação. Aqui vai uma pequena lista do que você não pode ou teria problemas em fazer:

Beber da fonte do Google Images para posts em mídias sociais? NÃO.

Ok, isso também é proibido aqui e deve ser evitado de qualquer forma. Mas a gente sabe que isso acontece aos montes por aí. E na maioria das vezes, o responsável pela página sai impune. Mas não pense que lá as coisas seriam iguais. O controle digital lá é efetivo e os passos são monitorados. Alguns sites pornográficos, por exemplo, simplesmente são bloqueados de lá. Mesmo essas “escapadas” são dificultadas.

Periscope? Streaming via YouTube? PENSE DUAS VEZES.

O serviço pode até estar disponível por lá, mas é bastante provável que nem todas as pessoas tenham acesso disponível ao seu conteúdo (especialmente se ele estiver sendo transmitido daqui ou de outros países que não a própria Alemanha).

Festinha para os clientes? SIM, MAS COM CAUTELA.

Pra festa, não dá pra dizer não. Aqui, se você vai produzir um evento com música ambiente, precisa pelos direitos de reprodução dessas faixas. Lá, o buraco é mais embaixo: o governo estuda uma lei que promete cobrar de DJs e organizadores de festas uma taxa pela reprodução de músicas em boates e festas. Portanto, lembre-se que você está pisando em ovos ao promover um evento por lá sem banda e com trilha gravada ambiente.

Engajamento via mídias sociais. SIM, MAS VAI TER QUE RALAR.

O Facebook é a mídia social mais usada na Alemanha. Entretanto, os alemães usam o Facebook menos do que internautas de qualquer outroi país da União Europeia. Outras redes sociais que fazem sucesso por lá são XING e StayFriends (ambas mais utilizadas do que Twitter e LinkedIn, por exemplo). Mas é importante compreender que, embora conectados e usuários da web para fins profissionais e pessoais, os alemães tem uma relação bastante diferente com tecnologia da nossa. Mais desapegada e menos exacerbada.

Temos algo a aprender com tudo isso? Provavelmente. Em razão de posturas como essa o país se mantém como a economia mais forte da União Europeia e é visto por todos como “um lugar onde as coisas funcionam” (ainda que com muita burocracia e má vontade). Mas uma coisa é certa: se um dia você pensar em por os pés definitivamente na nação alemã pretendendo viver e trabalhar em publicidade e comunicação, alguns vícios brasileiros terão que ser imediatamente largados. Do contrário, será melhor tirar o escorpião do bolso para arcar com as consequências.

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Ricardo Fernandes

Profissional freelancer de conteúdo e RP. Formado em publicidade, pós graduado em marketing e comunicação integrada. Publicitário, marketeiro e escorpiano. São Paulo/SP

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